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Ensaio Sobre a Cegueira - Review

por Miss F, em 01.10.15

Terminei esta semana um dos livros mais perturbadores que já li. Como não podia deixar de ser, passou imediatamente para o top dos meus preferidos. É um livro tão incómodo que nem sei por onde hei-de começar. Bem, a sinopse podem ler aqui. Adoro a escrita de Saramago, a forma como abdica dos parágrafos, vírgulas e pontos finais, com um encanto que só ele tem. O livro centra-se, como o título indica, na cegueira, uma cegueira que se alastra a todos como se de uma epidemia se tratasse. Esta cegueira geral leva a que todos desçam ao mais baixo que podem descer, à completa desorganização e falta de solidariedade. Assim, o que de melhor e de pior cada um tem vê-se com mais clareza - e é aí que reside a beleza deste ensaio. Conseguimos ver melhor as pessoas quando não as vemos, quando não vemos caras nem extratos sociais, quando não vemos idades nem riquezas, aí sim, vemos aquilo que as pessoas verdadeiramente são.

Este livro é uma crítica forte à sociedade, é um livro difícil de ler, violento psicologicamente e, tendo sido escrito em 1995, passados 20 anos continua actual. Uma destas noites, depois de ter estado a ler durante umas duas horas, levantei-me para ir fazer chá. O livro é tão desconcertante que dei por mim a ter atenção a todos os pormenores entre o quarto e a cozinha, a todos os gestos que fazia tão naturalmente e se adivinham difíceis para quem não os vê, temendo que a qualquer altura também a cegueira branca viesse reclamar os meus olhos. Com este livro surgiram tantas reflexões, umas mais mediatas - e se eu deixasse de ver? O primeiro receio foi deixar de conseguir ler, deixar de ser independente, deixar de conseguir ver as pessoas que gosto. Depois de terminar o livro abateu-se sobre mim uma solidão tão grande, um desconforto que é difícil explicar, e vieram outras reflexões - comecei a pensar que nós vemos tudo, mas observamos pouco. Vemos o dia, as pessoas, as coisas, correrem à nossa volta mas não vemos as pessoas por dentro, não conseguimos passar além do mundano. Apercebi-me que, realmente, o maior cego é aquele que não quer ver. E todos somos culpados deste mal, todos optamos por cegueiras temporárias que tornem o nosso mundo mais confortável, quando a vida está condenada a ser um desconforto. O desconforto que encontramos nas personagens deste livro é isso mesmo, a vida, em toda a sua plenitude, elevada ao extremo. Dei por mim a pensar se realmente conheço as pessoas que fazem parte da minha vida, se conheço a sua essência ou se vejo apenas a superfície, aquilo que eles querem que os outros vejam porque não são capazes de mostrar o que são realmente. Mas será que eu não faço o mesmo? Será que eu vejo sequer o que sou por dentro? 

 

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

 

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publicado às 12:51



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